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18 de novembro de 2019
Abime
Inovação

Alfabantu Professora cria aplicativo para ensinar idioma africano nas salas de aula

A educação precisa ser inclusiva e abraçar a diversidade. Em tempos de ameaças de censura e projetos de ‘despartidarização’ das salas de aula, a criação de instrumentos tecnológicos incentivadores da diversidade é mais que bem-vinda. É indispensável.

Odara Dèlé é professora da rede estadual de ensino de São Paulo e responsável pelo Alfabantu. Voltado ao público infantil, o aplicativo tem como proposta auxiliar na alfabetização de crianças por meio de jogos digitais e da contação de histórias sobre os povos africanos Bantu.

“Eu acredito que a infância é um momento importante construção de ideias e pensamentos. De identidade. E partir do momento que as crianças conseguem ter um contato ou com uma cultura diferente, ou mesmo com a sua cultura original, elas conseguem ter um fortalecimento identitário, se reconhecendo a entendo outras perspectivas sobre o mundo”, ressalta Odara em conversa com o site Hypeness.

Revolucionário, o Alfabantu une acessibilidade e informação. O aplicativo é gratuito e pode ser baixado por usuários do Android e Iphone. O trabalho realizado por Odara Dèlé representa outro passo solidificado pela reafirmação das conexões entre África e Brasil. A semente está plantada.

“Essas crianças conseguiram perceber, primeiramente, que as contribuições da população africana são fundamentais para compreensão do que é o Brasil hoje. E outro processo extremamente importante, é a localização e a compreensão de que cada país tem uma lógica cultural. Então, os alunos conseguem, de fato, desmistificar o que é o continente africano, o que seria aquela África que é um país, mas na verdade é o continente africano”. 

O diferencial de iniciativas com o Alfabantu e o Asa (falamos dele aqui) está em compreender as nuances do mundo habitado pelas crianças da segunda década do século 21. O aplicativo abusa da interatividade e de figuras lúdicas para entreter e ensinar os pequenos.

“Depois, nós vamos para o contexto linguístico, onde eles [alunos] conseguem aprender palavras em kimbundu e dialogam entre eles saudações que existem no aplicativo. A experiência está sendo maravilhosa, porque anteriormente num bate-papo, nós percebíamos que a ideia de continente africano era muito pejorativa. Na cabeça das crianças ainda está a ideia de que o continente africano é um país, que ele se representa apenas por miséria e por pobreza, que ele não tem cultura, língua e ainda, algumas crianças acreditam que não tem uma relação entre o continente africano e o Brasil”.

A interatividade transforma a dinâmica do aprender dentro da sala de aula. Com o Alfabantu, a professore consegue contar com subsídios consistentes os caminhos percorridos pelos Bantu até chegarem ao Brasil e também a forma com que estabeleceram sua cultura do lado de cá do Atlântico.

“A utilização do Alfabantu na sala de aula é importante, pois ele consegue circular por várias disciplinas que são fundamentais dentro do currículo escolar. Nós iniciamos nosso trabalho primeiro com o contexto histórico, onde nós falamos sobre a civilização Bantu, seu processo de expansão dentro do continente africano e os reinados. E depois pontuamos quais foram as condições que essa população Bantu veio para o Brasil. A partir disso, damos um olhar de uma perspectiva mais geógrafa. Nós pontuamos o continente africano e seus países, especificando que, de fato, cada país tem uma língua, sua cultura e sua lógica política.”

 Ainda pensando sobre a importância das palavras, o Alfabantu possui um glossário formado por variadas palavras do alfabeto kimbundu. São números, saudações, partes do corpo, nomes de animais e um quiz pensado como estratégia de memorização de frases e letras.

Apesar de romper com muitas fronteiras, o sucesso de plataformas com o Alfabantu dependem também da postura do docente. Desde a implementação da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de África nas escolas, muitos passos foram dados. Porém, Odara alerta sobre a existência em pleno 2018 de livros obsoletos e com uma visão totalmente estereotipada da contribuição africana para a formação do Brasil.

“Isso é uma questão gravíssima. São produzidos [os materiais], existem leis de incentivo, mas ele [os materiais] não chegam até a mão dos professores e educadores. O Alfabantu pretende em 2019 lançar o livro infantojuvenil bilíngue com português e kimbundu para, de alguma forma, potencializar essas duas coisas que nós comentamos. A possibilidade dos estudos de línguas africanas e consequentemente abastecer os professores e educadores que não têm materiais pedagógicos adequados para trabalhar nas salas de aula.”

Desde que foi disponibilizado na rede, o Alfabantu acumula mais de 6 mil downloads. O interesse vem de todos os cantos, Reino Unido, Portugal e Angola, além claro do Brasil. Dialogando com a reflexão proposta por Odara Dèlé sobre o ensino de África nas escolas, é possível concluir que as pessoas desejam sim conhecer sobre os povos de África e sua diversidade.

“A Lei foi importante no sentido de repensar as metodologias e a forma como o continente africano é abordado e principalmente para tentar desconstruir os currículos, que são engessados e eurocêntricos. Entretanto, ainda existe uma movimentação lenta e árdua para que, tantos os alunos quanto os professores, mudem suas posturas em relação ao outro e principalmente o olhar sobre o continente africano. Os meios de comunicação ainda trazem referenciais muito negativos sobre o continente africano e esses meios têm um poder muito forte sobre a população”, analisa a professora. 

Século 21 na sala de aula

Odara se mostra ciente dos desafios de lidar com tecnologia dentro de escolas públicas de São Paulo. Contudo, a professora admite ser necessário pensar em métodos que atendam ao mesmo tempo alunos familiarizados com celulares e tablets e os que não  gozam deste privilégio. Em média, os estudantes passam, em média, de 8 a 12 horas conectados.

“Na maioria das escolas não existe uma proibição da utilização de celulares. Na verdade, houve um decreto das redes estaduais em que foi permitida a utilização de equipamentos tecnológicos. O que esbarra na verdade são os equipamentos utilizados. Dependendo de algumas regiões, muitas crianças não têm os dispositivos móveis, (os celulares) então algumas professoras estão utilizando a metodologia dos tablets,que algumas escolas têm disponíveis ou os alunos sentarem um do lado do outro para utilizar o celular”.

Em 2017, o governo de São Paulo autorizou o uso pedagógico de instrumentos tecnológicos nas aulas. Com isso, professoras e estudantes podem utilizar aparelhos celulares durante o ano letivo. Segundo o então secretário de Educação, José Renato Nalini, a iniciativa segue tendência global. Para Odara, a decisão ajuda a aumentar a oferta de materiais de pesquisa.

Fazíamos estudos sobre a cultura e a história dos povos bantus e com passar do tempo houve a necessidade de fazer um estudo sobre a língua. Tivemos bastante dificuldade de encontrar materiais por mais que o estudo de línguas africanas esteja no processo de expansão, onde você já encontra materiais acadêmicos aqui no Brasil e em outros países, ainda assim há uma escassez. Nós tivemos auxílios de linguistas que possibilitaram revisão de algumas palavras e ainda assim um levantamento de algumas palavras em dicionários direcionados para quimbundo.

Régua e compasso

No âmbito da formação cultura brasileira, os povos Iorubás e Bantu são os que mais deixaram marcas na sociedade. O primeiro grupo conquistou espaço, sobretudo na Bahia.

“Os povos Iorubás, de fato, tiveram uma influência muito grande no nosso país, uma visibilidade que eu posso dizer, devido ao processo de religiosidade, por meio dos Candomblés de Nação  Ketu e em alguns aspectos culturais com a presença de elementos da população Iorubá”.

Odara chama a atenção para o papel exercido pelos Bantu. Concentrados principalmente na África Subsaariana, eles abrigam ao menos 400 subgrupos étnicos diferentes. Os Bantu costumam se comunicar especialmente por intermédio do Kimbundu (comum entre os povos Angolanos e Ngola) e do Kikongo (originária dos povos Bakongo-Kongo). Inclusive, estas são as línguas mais usadas em templos de religiões de matriz africana e tradição Ngola Knogo no Brasil.

Os Bantu vieram em maior número para o Brasil. Através deste processo de diáspora eles permitiram a construção do português brasileiro que conhecemos. Por que português brasileiro? Porque ele teve várias influências de línguas indígenas e principalmente de línguas africanas, especificamente do Bantu e do Kimbundu. Então, eu acredito, que divulgar a presença desse povo no nosso país e a sua importância na formação da nossa identidade brasileira, seja por meio dos traços linguísticos. A forma como nós falamos. Algumas palavras que nós falamos, possuem todo um elemento léxico da população Bantu

Odara Dèlé é a prova de que homens e mulheres negras continuam em pleno movimento. Criatividade é uma das armas mais poderosas para enfrentar e passar por cima do racismo e de políticas opressões que rondam os muros de escolas e universidades.

Fonte: Hypeness| www.hypeness.com.br/

Postado por: ABIME | www.abime.com.br

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