28 de outubro de 2020
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Covid-19: as primeiras semanas das aulas digitais nas escolas particulares do país

Enquanto a maioria das escolas fecha por conta da pandemia, algumas se abrem para o digital a distância e mantêm professores e alunos conectados.

A pandemia do novo coronavírus começou a empurrar os brasileiros para suas casas a partir de meados de março. Trabalhadores, profissionais liberais, prestadores de serviço, autônomos e desempregados à procura de recolocação foram orientados por patrões, chefes e autoridades (as conscientes, ao menos) a buscar isolamento em casa na luta para minimizar os efeitos da crise de saúde que assusta o mundo. Do infantil ao ensino superior, os estudantes não foram exceção. De fato, Praticamente todas as redes públicas municipais e estaduais de educação infantil, fundamental e médio do país, incluindo as do estado de São Paulo, interromperam as aulas até segunda ordem.

No caso da educação privada, a decisão mais comum foi continuar a oferecer o conteúdo do ano letivo submetendo os alunos ao sistema de educação a distância, com áudio e vídeo aulas gravadas ou ao vivo disponibilizadas em plataformas pela internet (leia texto nesta reportagem). Foram ouvidos professores de alguns dos colégios particulares mais respeitados do Brasil para conferir como suas equipes avaliaram as primeiras semanas dessa experiência remota e em grande escala de ensino, que certamente vai gerar ensinamentos importantes para o futuro da educação no Brasil e no mundo.

As ferramentas para as aulas digitais

O tradicional Miguel de Cervantes, em São Paulo, por exemplo, adota há anos o que seus educadores chamam de “ensino híbrido”, uma combinação de aulas e transmissão de conteúdo nos modelos presencial e remoto. Utilizam para isso o software livre Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment, o Moodle. O programa, disponível em 75 línguas, permite criar páginas de disciplinas, cursos on-line, grupos de trabalho e comunidades de aprendizado. E reúne em torno de 25 mil sites, registrados em mais de 175 países.

A partir do oitavo ano fundamental, todo aluno do Cervantes é submetido ao projeto de imersão digital do colégio. “Neste momento de ruptura, com o fim do presencial, toda nossa estrutura montada para o ensino digital, que era complementar, embora de ponta no país, passou a ser a única forma de contato com os alunos em suas casas”, explica a orientadora de ensino médio, Kátia Pupo. “Nesse contexto, houve a necessidade de intensificar a formação dos professores, com cursos e oferta de novas ferramentas, como o Teams, da Microsoft, e também preparar os alunos para o trabalho com tantos recursos”, acrescenta a educadora.

Os professores estão dando as aulas virtuais nos mesmos horários da grade presencial. As aulas são ao vivo, em formato de lives, e também gravadas, o que facilita a repetição e o acesso pelos estudantes em horários diferentes, para reforço. “Tivemos um início muito intenso, mas preferimos uma atitude mais arrojada no cumprimento dos horários para respeitar a rotina dos professores e acostumar os alunos à nova experiência, o que é muito importante”, diz ela.

Como na maioria dos casos, a frequência não foi a ideal nos primeiros dias, mas logo depois atingiu níveis aceitáveis. “Eu mesma dei há pouco uma aula para uma turma de 21 alunos com apenas três ausências. Apesar do trabalho intenso, estão todos aprendendo e se divertindo muito. Por isso, acho que a volta ao presencial será em outro patamar. Os aprendizados desse período facilitarão muitas ações futuras”, aposta a orientadora.

Cuidados

É importante destacar um ponto fundamental na experiência relatada por praticamente todos os entrevistados. Por mais que existam professores competentes e preparados para usar as ferramentas digitais, amparados por equipes tecnológicas eficientes, é impossível qualquer curso a distância desenvolvido às pressas apresentar resultados positivos equivalentes ao de um idealizado, definido e programado com antecedência. Se o projeto se desenvolve com data do início, mas não de fim, a situação fica evidentemente mais complicada.

“Em cursos programados temos tempo para definir os instrumentos para aferir quase tudo, o que evidentemente não ocorre em improvisos como esse”, compara Teresa Chaves, professora de História da Escola Móbile, com mestrado semi presencial na Universidade de Barcelona, na Espanha, e pesquisadora de temas relacionados ao ensino a distância. Ela conta que avaliação dos resultados iniciais é, de maneira geral, positiva. Ajudou bastante o fato de professores e alunos terem experiência em aulas remotas na complementação das atividades do projeto didático e pedagógico da escola.

Teresa chegou a conclusões importantes a respeito do que poderá ser o cenário para se propor ensino a distância em escala no futuro próximo, quando o Brasil e o mundo saírem da crise. “Sob o ponto de vista tecnológico, não estamos nada longe. Dá para fazer. O problema é que o aparato ideal ainda é muito caro e fora de realidade para ser aplicado em quantidade. A estrutura para a escola emitir e também a de recepção dos alunos em casa demandam valores ainda fora da realidade”, explica ela. “Além disso, a quantidade de conhecimento que a internet pode oferecer simultaneamente é muito maior do que a de qualquer professor. Por mais que o educador seja fundamental, acho arrogante imaginar que nada melhor do que ele será sempre a única e melhor opção para quem aprende”, acredita.

Apesar disso, a professora do Móbile ainda não enxerga a viabilidade da educação, sobretudo de crianças e jovens, totalmente fora do espaço escolar. Para ela, o modelo poderá até combinar aulas remotas e presenciais, mas nunca abrir mão totalmente da sala de aula. “Para imaginar um projeto dessa natureza como único precisaríamos conceber o processo em outros termos. Educação passa por sociabilidade, construção de cidadania, empatia e experiência com diferenças, entre outros fatores que ainda só se atinge com a convivência. São vínculos necessariamente presenciais. Não temos até agora uma fórmula para atingir essas coisas de forma virtual. Então pode ser uma ferramenta incrível para fazer o ensinamento chegar a lugares aonde não chega hoje. Mas substituir a educação como se conhece hoje, de jeito nenhum.”

Os dois lados

A diretora pedagógica da Escola Viva, Camilla Schiavo, enxerga como primeiro ponto positivo a continuidade dos estudos sem a interrupção do fluxo de trabalho pedagógico. “A interação entre os pares – alunos e alunos, aluno e professor – faz toda diferença no processo de ensino e aprendizagem. Estamos criando formas e ferramentas para dar conta dessa interação, mas sabemos que nada se compara ao olho no olho entre professor e a turma toda”, ressalva.

Um ponto negativo em relação ao estudo a distância é o longo tempo de exposição às telas de celulares, tablets e computadores. Por isso, Camilla reforça a importância de a escola propor atividades analógicas, feitas no material didático. “O objetivo é equilibrar as propostas virtuais e físicas”. A especialista explica que uma criança consegue ficar dentro de sala durante as horas de aula porque nesse período se move, vai ao banheiro e desce para o recreio. Em casa a interação com os colegas e ambientes não é tão grande. Por isso, não é aconselhável mantê-la tanto tempo em ambiente virtual.

No Imperatriz Leopoldina, de Santana, zona norte de São Paulo, os professores – que já usam a plataforma Click Educação para aulas remotas – fizeram também um trabalho de imersão em pesquisas para definir aplicativos que poderiam ajudar na empreitada. Além disso, a escola contratou um estúdio profissional para gravar aulas no esquema de lousa invertida, que oferece aos alunos um ângulo semelhante ao obtido a partir das cadeiras da classe. “Tudo isso nos ajudou a ter resultados que nos deixaram satisfeitos diante das circunstâncias”, resume a educadora e consultora Ruth Nassif, orientadora educacional do Imperatriz.

Apesar da grande preparação em pouco tempo, Ruth e seus colegas registraram certa dispersão na primeira semana a distância. “Os registros de frequência nas plataformas não foram tão altos nos primeiros dias, mas logo depois se estabilizaram e ficaram próximos do que se nota em sala de aula”, contabiliza.

“Consideramos normal essa irregularidade no início, até mesmo pelo fato de alunos e familiares ainda estarem aprendendo a como lidar numa realidade que, afinal de contas, é inédita no Brasil”. A educadora concorda com Teresa. “O apuro tecnológico já existe, mas ainda não está à disposição de todos com a mesma qualidade. A começar pela oscilação da internet no país, que é um problema. A questão do aparato de transmissão também é importante. Ter qualidade no nível das aulas ao vivo ou transmitidas a partir de estúdios profissionais, com a qualidade de som e imagem que tivemos, ainda é algo irreal para ser aplicado de forma regular e permanente”, avalia.

Seja como for, relatos interessantes, feitos nos últimos dias por pais e educadores, ilustram bem a situação. A escritora e jornalista Laura Mattos, mestre pela USP e autora de Herói mutilado – Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura, detalhou no texto Aulas gravadas ou ao vivo? Dilemas em tempos de coronavírus, publicado em sua coluna na Folha de S. Paulo, a experiência em casa com o ensino a distância de seus dois filhos.

O caçula está matriculado no sexto ano fundamental em um colégio com 500 estudantes. Ele e os colegas utilizam a plataforma Classroom, do Google, em que os alunos aparecem em janelas e podem perguntar e fazer comentários. “Claro que não foi fácil, que falavam todos ao mesmo tempo, a internet caía, mas, como o passar dos dias, foram se acertando. O encontro com os amigos e professores ao vivo trouxe conforto para o meu filho, que, como todos, está angustiado com tudo isso. O fato de ter um horário para acordar, para estar nas aulas, fez com que se sentisse mais seguro, mais feliz, e isso ajudou na rotina da família”, detalhou Laura. “Ao final da primeira semana ele começou a ficar cansado, ter dor de cabeça, e demos esse retorno à escola, assim como a outros pais.”

O mais velho, estudante do primeiro ano do ensino médio de uma escola tradicional, com mais de três mil alunos, recebeu conteúdo em texto nos primeiros dias e, sem seguida, aulas ao vivo de até meia hora. Sentiu “dificuldades para estabelecer uma rotina” e, nos primeiros dias, “não conseguiu ter muita proximidade com os colegas da sala e com os professores”.

No Colégio Madre Alix, uma das unidades da Rede Alix, que utiliza o pacote Google de ensino a distância no fundamental II e no médio, o maior desafio do time liderado pelo coordenador pedagógico geral, o pedagogo e doutor em Literatura pela Unicamp Cristiano Rodrigues Batista, foi o de estender o ensino com mediação tecnológica aos professores e alunos do infantil e das turmas de fundamental II. “Para os mais velhos, que utilizam a tecnologia há anos, foi fácil estabelecer um ritmo de material apenas na forma de texto com os de áudio e vídeo”, conta Batista. “O mais delicado foi trabalhar com os mais novos, porque a gente muitas vezes tinha apenas a palavra, ou pouco mais do que isso, para atrair e mobilizar a atenção de crianças que ainda não dominam a tecnologia com muita disciplina.”

A educadora Sonia Barreira foi sócia-fundadora e diretora-geral, por 40 anos, da Escola da Vila. Atualmente ocupa a direção pedagógica da rede de escolas Bahema Educação. No artigo As escolas e o desafio da aprendizagem das crianças de quatro a cinco anos na crise do coronavírus, ela tratou do assunto com ênfase justamente no ensino infantil. “Há aqueles que falam apenas em manutenção do vínculo, através de histórias e vídeos, e em muitas escolas, os professores têm mantido contato com suas turmas e distraído os pequenos em alguns períodos do dia. Afeto e entretenimento”, registra ela. “Mas será que a necessidade das crianças dessa idade se limita a isso?”, questiona.

Como resultado, Sônia aprofunda a análise. “Sabemos que, nessa faixa etária, os pequenos aprendem muito através das representações, do ‘faz de conta’ e por isso brincar é tão importante. Afinal, trata-se de uma poderosa atividade espontânea que ajuda as crianças a compreenderem o mundo, a organizarem seus sentimentos, e expressarem seus desejos e medos, além de favorecer maneiras de interpretar a realidade. E para isso, nada melhor do que o convívio com seus pares em ambiente seguro. É exatamente o que não temos agora”, salienta.

Em outro ponto do artigo, Sandra toca no ponto mais polêmico de todo esse processo: a importância da presença do professor na educação básica. “É precisamente por essa razão que os educadores especializados na infância fazem ainda mais falta neste momento. Se as crianças já estão privadas do convívio e dos desafios das brincadeiras espontâneas, precisam ainda mais de boas e adequadas propostas para que possam seguir aprendendo e desenvolvendo suas capacidades humanas”, defende.

“Se não há a briga e a disputa pelo brinquedo nas atividades presenciais, o educador pode oferecer narrativas que trazem a experiência do conflito e das possíveis resoluções. (…) Se o espaço físico é restrito, o educador pode criar situações de desafio para o controle motor, equilíbrio, ritmo, e favorecer a construção de habilidades físicas em contextos lúdicos. Se os materiais de casa não são os ideais para práticas das artes plásticas, é ainda mais importante o conhecimento dos professores para as propostas diversificadas que permitam as representações ricas e criativas da infância”, enumera.

Aliás, a experiente educadora chama atenção ainda para o desafio das famílias neste momento. “Os familiares podem propor jogos e explorações das quantidades e suas representações, mas são os educadores infantis aqueles que poderão ainda melhor criar situações-problema instigantes que incentivem o raciocínio lógico, que desafiem as contagens e os registros de quantidades em contextos divertidos que garantem as aprendizagens adequadas para cada faixa etária. (…) O importante é que a escola e a família não se furtem de suas responsabilidades: os pequenos precisam de muito mais do que afeto e distração, necessitam de nutrição cultural, desafios físicos, cognitivos e morais”, alerta.

Neste momento de suspensão de aulas presenciais, alguns grupos se encorajaram a lançar projetos abrangentes e gratuitos de formação a distância de professores. Um deles, por exemplo, é o Camino Education, que passou a disponibilizar lives diárias com ferramentas e conteúdos para o aprimoramento dos temas relacionados à aprendizagem ativa e planejamento para o desenvolvimento de métodos de educação a distância. O curso é conduzido por Leticia Lyle, uma das fundadoras e diretora educacional do grupo.

Dessa maneira, os encontros acontecem por um canal no Youtube. Para participar, o educador deverá inscrever-se gratuitamente no endereço https://bit.ly/formacao-aprendizagem-ativa. As seis aulas iniciais do curso tiveram mais de 12 mil visualizações. Em média, mil professores acompanham diariamente as lives. Mais de 1,2 mil professores se inscreveram nos primeiros dias, entre eles representantes de redes públicas e escolas privadas de Barretos, Jaú, Limeira, Presidente Prudente e São João da Boa Vista, além de profissionais das secretarias de educação de Barra Bonita, Blumenau, Alfenas e de várias outras cidades e estados do país. Há o consenso de que o Brasil e o mundo serão outros após a febre preocupante do coronavírus. Que a educação do país saia melhor desse túnel.

Fonte: Revista Educação

Postado por: Abime | Abime.com.br

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