21 de janeiro de 2022
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Investimento em educação no Brasil está distorcido, alerta diretor da OCDE

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O investimento em educação, o futuro do ensino superior e as causas que levam Andreas Schleicher a não ser favorável às aulas virtuais nas universidades também são destaques desta conversa

 

Um dos criadores do exame Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o estatístico alemão Andreas Schleicher é hoje diretor da área de educação e habilidades e assessor especial de políticas educacionais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Poucas pessoas têm uma visão tão completa sobre como funcionam os sistemas de ensino dos países como Andreas, que estuda profundamente há mais de 20 anos a forma como os países enfrentam os desafios do ensino básico e do superior, traduzindo também os avanços e retrocessos em números. O estatístico tornou-se uma referência para discutir os rumos que a educação vem tomando, principalmente em tempos tão incertos como será o do mundo pós-pandemia.

Andreas Schleicher: Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália têm bons sistemas de financiamento estudantil no ensino superior (foto: James Duncan Davidson)

Qual sua opinião sobre as tendências da educação superior no mundo? Para onde vai o ensino superior?

A educação terciária está se tornando o que a educação secundária era no século passado, oferecendo as bases para alguém ser bem-sucedido no mundo atual. Isso não significa apenas a universidade. Há muitas formas diferentes de aprendizado depois da escola regular. Mas eu realmente acredito que é muito importante, agora, que as pessoas estejam prontas a aprender ao longo de toda a vida, e sejam capacitadas para além da escolarização.

Na década de 90, o Brasil iniciou sua expansão do acesso à universidade, com a participação do setor privado. Como consequência, o país possui um grande número de faculdades e universidades privadas. Como vencer o desafio de crescer com qualidade?

Eu compartilho a preocupação de muitos de que há uma variação na qualidade do ensino superior no Brasil. Muitas instituições de ensino brasileiras vendem aos jovens brasileiros um certificado de graduação, mas não oferecem boa educação, e isso é realmente um problema. Os jovens conseguem um papel que garante uma certificação, mas há muito pouca garantia de qualidade. Existem países que conseguiram expandir fortemente a educação terciária com bom ensino, mas para isso é preciso uma forte estrutura regulatória com mecanismos de garantia de qualidade. Isso não se produz sozinho. A ação do governo é essencial. Ele não precisa prover educação terciária, mas precisa regular. Se você é um aluno, precisa estar seguro de que, se investe seu tempo e seu dinheiro, deve receber boa educação. Não acho que isso seja verdade no Brasil.

O Brasil gasta três vezes menos com educação básica que outros países da OCDE. No ensino superior, entretanto, o investimento governamental equivale ao gasto médio dos países da OCDE. Você acha que o Brasil deveria mudar sua estratégia de investimento?

Eu penso que o investimento em educação no Brasil está muito distorcido. Quando se trata de dinheiro público, é preciso que os recursos sejam destinados àqueles que necessitam, ou seja, aos alunos na escola básica. Nessa etapa, o Brasil investe muito pouco. Aqueles que sobrevivem ao sistema escolar brasileiro têm dificuldade de chegar à universidade.

Os brasileiros que vão para boas universidades públicas são os que vêm de famílias mais ricas, isso não é justo. A responsabilidade dos governos com a educação básica é muito mais importante, porque é lá que se geram as fundações: se você tem uma boa educação básica, você encontrará seu “caminho” até o ensino superior. Se não tem uma boa educação básica, nunca vai conquistar a passagem para a próxima etapa. No caso do Brasil, o baixo investimento nos anos iniciais é o grande problema, não o investimento na educação superior.

Os países têm abordagens diferentes para fornecer apoio financeiro direto para alunos do ensino superior. Em sua opinião, quais seriam as abordagens ideais para um país em desenvolvimento como o Brasil?

Em primeiro lugar, é importante que os governos tenham controle sobre o valor das mensalidades. Muitas instituições cobram mensalidades exorbitantes por poucos serviços prestados. Há monopólios e isso não é bom. É como acontece nos Estados Unidos; os preços estão loucos, em muitas instituições. É preciso garantir que as mensalidades correspondam ao valor que as universidades realmente oferecem. Para mim, essa é uma responsabilidade de governos, não deixar tudo para o mercado resolver. Segundo, estou aberto para a existência de mensalidades na universidade. Quando tudo é pago pelo governo, muito poucas pessoas vão para a universidade. É o que vocês têm no Brasil.

O governo paga pelos alunos das universidades públicas e os outros têm de se virar por si mesmos. Esse não é um bom sistema. O melhor sistema é o governo garantir financiamento a todos que queiram ir para a universidade. Basicamente, nessa abordagem, você garante o empréstimo às pessoas para que possam pagar depois, na proporção de sua renda. Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália têm bons sistemas. Se você simplesmente oferece o dinheiro sem deixar claro que o empréstimo poderá ser pago apenas quando houver condições, muita gente não usará o recurso porque pensa que poderá não conseguir e se tornará um devedor, mas se você cria um sistema de crédito em que o governo dá o empréstimo e, mais à frente, quando começar a ganhar, passa a pagar, esse tipo de sistema é sustentável, escalável e gera os recursos de que você precisa.

Em um mundo em rápida mudança, você acha que as faculdades e universidades deveriam adaptar todas as suas estruturas curriculares para atender às necessidades dos alunos de hoje?

Um dos problemas que nós temos hoje é que faculdades são muito demoradas. Você tem de estudar por três ou quatro anos para conseguir uma graduação. No futuro, o ensino será mais modular.

O que importa é que as pessoas se apropriem do que aprendem, como aprendem, onde aprendem, quando aprendem, no ambiente do trabalho, em institutos educacionais. Deve haver muito mais integração entre trabalho e aprendizado. No futuro, vai existir uma via de duas mãos entre educação e trabalho, com as instituições de ensino mais conectadas ao mundo do trabalho.

O risco de deixar para trás pessoas que não têm um forte background não é maior?

Eu acho o contrário: é menor.  Se você vem de uma grande desvantagem de background, mas é muito talentoso, vai estudar por quatro ou cinco anos se não tem certeza de como vai trazer dinheiro para sua família? Em um sistema modular, poderia dizer: agora vou trabalhar por mais um ano, depois voltarei para a universidade; é um sistema mais equitativo. Quando as pessoas pensam que terão de passar cinco anos na universidade, muitas decidem não dar esse passo.

Como a educação híbrida está afetando o ensino superior hoje?

Eu acho realmente que o ensino híbrido desafia a proposta de valor das universidades, pois não penso que se possa pedir para um aluno universitário pagar muito por um curso online. Pessoas vão para a universidade para encontrar grandes professores, trabalhar com pesquisadores em laboratórios, para experi­mentar a vida universitária em um campus. Se você tira isso, não acho que sobra muita coisa. Você pode estudar com a Microsoft ou alguma outra companhia. A razão para ir à universidade é que aprender não é um processo transacional, é um processo social, relacional. Se a universidade perde isso, perde a identidade. Eu não acho que as universidades possam competir apenas com a aprendizagem online.

O impacto da pandemia nas universidades foi significativo?

A pandemia trouxe um impacto muito significativo para a universidade. Na escola básica, o modelo da escola foi mantido. Na universidade, se elas não podem oferecer um ambiente real de aprendizagem, perdem sua razão de ser. Esta é para mim a grande mudança da pandemia no ensino superior. Eu não acho que as universidades consigam entregar significado na educação remota. Na educação transmitida remotamente vamos ver muitas alternativas de oferta, sim, vimos muitas empresas dizendo: nós podemos fazer muito melhor do que as universidades.

Assistimos a aulas via internet dadas por professores universitários na pandemia que foram experiências de aprendizagem muito pobres. Lendo textos que não engajam, não são interessantes. Então, há muitas alternativas para as tecnologias de transmissão de conhecimento. Mas, se as universidades quiserem manter sua identidade, devem focar em mentoring, coaching, pesquisas colaborativas, para engajar os estudantes. Se não o fizerem, o modelo de palestras de auditório perderá seu propósito.

No Brasil, os caminhos pós-ensino médio, muitas vezes, se resumem à entrada na universidade. Não seria necessário tornar a educação profissional também um caminho para os jovens?

Em um futuro próximo a divisão entre ensino acadêmico e profissional vai acabar. O ensino profissional deve promover competências mais transversais, não apenas habilidades práticas. A formação acadêmica, por sua vez, precisa ser mais voltada à aplicação. Deve haver uma melhor integração. Sim, o Brasil precisa melhorar a educação profissional, mas não se deve aprisionar as pessoas a uma mentalidade técnica. Se quer se tornar um mecânico, o aluno deve buscar o ensino técnico, e se quiser se tornar um engenheiro, a universidade deve estar aberta para receber pessoas com formação prática e prover as competências acadêmicas. E vice-versa.

O importante é pensar de forma mais integrada. Não podemos fechar as opções das pessoas. Hoje, se um ótimo mecânico de carros quiser ser engenheiro no Brasil, a universidade vai dizer: comece do zero, não vamos reconhecer nenhuma de suas habilidades, nenhuma de suas experiências; as pessoas voltam à estaca zero. No futuro, a universidade vai olhar o que as pessoas sabem para melhorar essas competências de uma forma mais aberta. As universidades vão ser mais abertas para aprendizes mais velhos, também. No momento, as universidades olham para os jovens alunos. No futuro, acho que vamos olhar para todos os que querem aprender; as universidades ficarão mais flexíveis para entender as necessidades de todos.

Fonte: Revista Educação

Publicado por Abime

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